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Maldita BR-101!

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Arlicélio Paiva

Nesse período de verão, quem viaja do sul da Bahia até Feira de Santana pela BR-101 enfrenta uma estrada muito cheia, além do normal. Por isso, eu resolvi pegar a estrada de madrugada, antes do sol nascer. Fui com o sentimento de perda porque iria passar muito cedo naquele restaurante que serve o suco de pitangas vermelhas, o meu preferido. Não sei como vai ser ao passar em frente ao restaurante e não tomar o suco, nunca fiz isso.

Ao transitar pela estrada, tive o sentimento de que todo mundo resolveu viajar no mesmo horário que o meu. Veículos de todos os tipos, de todas as cores, com os mais diversos propósitos, viajavam em uma fila que parecia não ter fim. Muitas vezes a estrada desaparecia, só dava para ver um pequeno trecho, pois a neblina devorava o resto. Com pouco mais de uma hora ao volante, eu já estava estressado. Maldita BR-101!

O interessante é que não percebi quando passei em frente ao restaurante que serve o suco de pitangas vermelhas, acho que eu ainda estava na fila, no meio da neblina. Não me lembro de ter passado pela ponte sobre o Rio de Contas. Mas, passei, porque passei do restaurante que serve o suco de pitangas vermelhas. O dia já havia amanhecido e o sol deu o ar da graça e eu ainda continuava na fila de carros. Pelo retrovisor, eu não via nada além de uma cabine azul de um caminhão que estava dirigindo perigosamente próximo ao meu carro. Eu só via a frente do caminhão. Nada mais. Aquele barulho do ar do freio do caminhão escapando me irritava. Amaldiçoada BR-101!

Naquela altura, eu só pensava em tomar o café da manhã naquela barraca da beira da estrada que servia um beiju feito com tapioca fresquinha, recheado com queijo coalho e banana da terra. Aquela mulher fazia um cafezinho coado na hora no coador de pano. Mas, o melhor do café era a prosa da mulher. Ela conversava dos problemas, sorrindo, com aqueles dentes bonitos e uma risada encantadora. Parece que os problemas da mulher eram como um filme que tudo acabava bem no final. Mas, o trânsito me tirou a vontade de parar naquela barraca. Nem o beiju, tampouco o café, estavam bons para mim naquela hora. Eu estava mal-humorado. Infeliz BR-101!

Logo à frente, o trânsito parou de vez. Eu vi um carro parado no acostamento, com um pai ao volante e uma mãe no banco traseiro do carro, com dois filhos pequenos que estavam chorando inconsoladamente. Aquela mulher estava mais histérica do que uma mãe normal que cuida de dois filhos pequenos e de um mundaréu de coisas. Dava para ver que a BR-101 havia lhe suprimido os planos de estar com as crianças na areia da praia naquele momento. Era lá que ela deveria estar, mas a BR-101 atrasa a vida de todo mundo. Perversa BR-101!

Mais tarde, eu vi uma ambulância parada no acostamento. O tráfego era tamanho que a sirene não servia de nada e o motorista não conseguia avançar na velocidade necessária para a urgência. O doente estava sentado na maca, sem camisa, sendo abanado pela enfermeira. Ele era portador de um problema cardíaco e estava sendo conduzido para Salvador, a fim de fazer uma cirurgia de ponte de safena. Felizmente, com a evolução da medicina, esse problema não mata mais quase ninguém.

Passei naquele quebra-molas onde o moço vende milho assado que eu tanto gosto. Eu nem olhei para o milho. Estava com uma mistura de sede, fome de nem sei o quê, cansaço e sofrendo com um mau cheiro de um caminhão carregado de porcos. Pior estava para os animais, inquietos, sedentos, sofrendo com o sol escaldante e grunhindo sem parar. Por sorte, o motorista parou no posto para jogar um jato de água nos animais a fim de amenizar o sofrimento. Tenho certeza de que o torresmo daqueles porcos ia incorporar o sabor ruim da viagem. Amarga BR-101!

Um pouco mais tarde, eu vi o motorista da mesma ambulância que eu deixei para trás, fazendo uma ultrapassagem perigosa. Ele obrigou os carros que estavam vindo na direção contrária a se deslocarem para o acostamento. Logo em seguida, tudo travou. A ambulância parou no acostamento para socorrer o homem mais uma vez. O problema de saúde dele não era tão grave. Mas, a BR-101 tem as suas próprias regras. O homem que seria salvo pela medicina foi morto pela BR-101. Eu vi o homem morrendo pelos gestos desesperados da enfermeira. A ambulância não conseguiu chegar à Salvador a tempo e a morte alcançou o homem no trânsito travado da BR-101. Mortal BR-101!

Depois desse ocorrido, eu fiquei pensando na família daquele homem que teve esperança nas palavras dos médicos que lhe falaram das estatísticas favoráveis para que ele continuasse vivo. Ele ia ver sua filha se formar. Ia levá-la para o altar tempos mais tarde. Ia jogar bola com os seus netos. Pobre homem. Mal sabia ele que a BR-101 rouba os sonhos das pessoas e torna as famílias infelizes.

O pior é que o propósito da BR-101 era encurtar distâncias entre o Rio Grande do Norte e o Rio Grande do Sul. Mas, parece que 10 km da BR-101 no trecho do sul da Bahia até Feira de Santana são mais extensos do que os mesmos 10 km na BR-101, de Feira de Santana na direção norte. Acho que o trecho norte já está duplicado, talvez seja por isso. Existem tantas associações de municípios para reivindicar melhorias para a população, será que não existe uma para exigir a duplicação da BR-101 no trecho sul? Ao menos um grupo de WhatsApp os prefeitos deveriam fazer! Ou será que eles não se importam? Talvez seja isso.

O nome oficial da BR-101 é “Rodovia Governador Mário Covas”. Mas, tenho certeza de que Mário Covas, se vivo estivesse, iria solicitar ao Senado da República para batizar esse trecho maldito com o nome de “Rodovia Presidente Michel Temer”. Seria uma justa homenagem! Desprestigiada BR-101!

Será que os homens responsáveis pelas rodovias do país não veem que a BR-101 não atende mais o propósito de viagens tranquilas e seguras para os usuários?  Esse trecho sul está sobrecarregado, com pistas mal traçadas, delimitadas há quase 70 anos. Precisa ser modernizado! As cidades avançaram sobre as pistas e dificultaram o trânsito em boa parte da BR-101. Será que os prefeitos também não se importam com isso?

Malditos homens que não cuidam devidamente dessa bendita BR-101!

*Arlicélio Paiva é Engenheiro Agrônomo (UFBA), Doutor em Solos (UFV) e Professor do Departamento de Ciências Agrárias e Ambientais da UESC, Ilhéus, Bahia. Insta: @arliceliopaiva

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