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Uma morte humilhante

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Artigo de Arlicélio Paiva*

Em novembro de 2014 participei do Congresso Latino-Americano de Ciência do Solo no Peru, país situado no continente sul-americano. O Peru se localiza no Círculo de Fogo do Pacífico, que delimita a fronteira de diversas placas tectônicas, percorrendo uma extensão de 40.000 km, aproximadamente, envolvendo as costas oeste do continente americano, leste da Oceania e da Ásia e norte da Antártica. Em torno desse Círculo ocorrem cerca de 75 % dos vulcões e 90 % dos terremotos ativos na Terra.

As placas tectônicas são enormes estruturas de rochas sólidas, que deslizam sobre a parte superior do manto da Terra. Essa parte deslizante apresenta um aspecto mais fluido e pastoso e recebe o nome de “astenosfera”. A teoria de Placas Tectônicas explica a dinâmica da camada externa da Terra. O movimento dessas placas é responsável pela formação de continentes, oceanos, montanhas, vulcões e terremotos.

Os terremotos e vulcões ocorrem, principalmente, na fronteira das placas tectônicas. Os movimentos mais comuns são por choque de uma placa contra outra ou por afastamento das placas. Como no Peru ocorre o choque de duas placas tectônicas, é rotineira a existência de terremotos e vulcões naquele país. O congresso que participei foi realizado em Cusco, antiga capital do Império Inca, cidade que está localizada a 3.400 m acima do nível do mar.

Poucas horas depois de ter chegado em Cusco fui acometido por “soroche”, mais conhecido como mal da altitude. Apresentei sintomas de falta de ar, dor de cabeça e náuseas. Assim que fiquei em condições mínimas para caminhar, desci até a recepção do hotel e nem precisei falar nada para o recepcionista, pois ele já estava treinado para identificar visualmente os turistas que passam mal em função da altitude. Ele veio ao meu encontro com um balão de oxigênio que, infelizmente, estava vazio. Ele solicitou um táxi para me conduzir até uma farmácia e, enquanto o carro estava vindo, ele me serviu uma dose generosa de chá de coca, a mesma planta que produz a cocaína. Mas, o chá não tem nenhuma relação com a droga. Na farmácia, comprei um tubo de spray de oxigênio e lá mesmo comecei a inalar. De lá, o taxista me deixou no local onde iria se realizar o evento. Assim que os meus colegas brasileiros me viram, notaram que eu não estava bem e me encaminharam para um posto de saúde no próprio local, onde fiquei por uma hora inalando oxigênio e recebendo o aconselhamento de uma médica muito gentil.

Nos dias seguintes, participei do congresso sem maiores problemas. Mas, não conseguia caminhar por muito tempo, sem ter que parar para inalar oxigênio, cujo tubo de spray eu carregava o tempo todo numa mochila. Aproveitei a oportunidade para conhecer Machu Picchu, a “cidade perdida dos Incas”, uma das 7 maravilhas do mundo moderno. A viagem de trem entre Ollantaytambo e Aguas Calientes (cidade que fica a 6 km do Parque Arqueológico Nacional de Machu Picchu), margeia o belíssimo rio Urubamba. No percurso avistamos uma infinidade de picos da Cordilheira dos Andes, alguns deles nevados. A cordilheira é resultante do choque da placa tectônica Sul-Americana (o Brasil está localizado em seu centro) com a placa de Nazca (Oceano Pacífico).

Terminado o congresso resolvi conhecer a cidade histórica de Lima, capital do Peru, que está encravada em um deserto, nas margens do Oceano Pacífico. Quase não chove em Lima, sendo a precipitação média anual de apenas 20 mm. A água que abastece a cidade é oriunda do derretimento de geleiras dos Andes. Eu fiquei entusiasmado com tudo que vi em Lima.

No dia seguinte participei de um passeio turístico pela cidade de Lima, organizado por uma empresa turística local. Fiquei impressionado com museus, igrejas, praças, sítios arqueológicos e tudo mais que vi. Umas das coisas que mais me chamou atenção foi o tamanho das suas praças. Eu não entendia qual o motivo de serem tão grandes. O guia turístico recomendou para que eu visitasse o Circuito Mágico das Águas que funciona à noite em uma grande área verde no Parque de la Reserva, com fontes de água de várias formas e diversas cores.

Eu fiquei hospedado em um hotel no bairro Miraflores, principal destino dos turistas que visitam a cidade. Era por volta de 19h00 no horário local, e eu estava no quinto andar do hotel, me preparando para sair para visitar o Circuito Mágico das Águas, quando eu ouvi um barulho que até então desconhecia. Segundos depois, percebi que o hotel estava tremendo, quando me dei conta que se tratava de um terremoto. Minha primeira reação foi me abrigar em uma “zona segura em caso de abalos sísmicos”, indicada por placas de avisos, que são muito comuns em prédios de Lima. Depois de cessado o terremoto, desci pelas escadas até a recepção do hotel e vi que o saguão estava lotado por turistas apavorados. Observei também que o recepcionista estava tranquilo, como se nada tivesse acontecido. Dirigi-me a ele e, tentando não parecer apavorado, perguntei se havia ocorrido um abalo sísmico. Ele me respondeu que ocorreu um abalo muito fraco e que aquilo era comum em Lima. Continuei com a minha tranquilidade aparente e fiz uma pesquisa no celular e descobri que a intensidade do terremoto foi de 4 graus na escala Richter, suficiente para me deixar instável emocionalmente. Posteriormente, pesquisei na base de dados do Instituto Geofísico del Perú e descobri que ocorreram 1.025 terremotos em todo o país no ano de 2014.

Voltei para o apartamento torcendo para que não ocorresse réplica do terremoto. Naquele momento, perdi todo o entusiasmo para ver a mágica das águas. Fui para um restaurante ao lado do hotel e pedi uma sopa, muito comum nos restaurantes de lá. Tive o cuidado de sentar em uma mesa localizada na entrada do restaurante para sair imediatamente em caso de réplica. O garçom me serviu a sopa, mas eu estava com o terremoto na cabeça; fiquei olhando para as pessoas sorridentes e descontraídas que estavam no restaurante e me perguntava como elas podiam estar tão tranquilas depois de um terremoto. O garçom percebeu que eu não estava a fim da sopa e me serviu um limão para melhorar o sabor. Eu agradeci e disse que o problema não estava na sopa, mas em mim, que fiquei apavorado com o terremoto. O garçom sorriu e me garantiu que eu pudesse ficar tranquilo.

Eu voltei para o hotel e fiquei imaginando como seria se o terremoto fosse de maior intensidade, suficiente para derrubar as paredes do edifício e deixar apenas o esqueleto do hotel, que é feito com estrutura resistente a terremotos. Lembrei-me que sou portador de labirintite crônica e não suporto altura. Portanto, se isso tivesse acontecido, eu ficaria em cima de uma viga no quinto andar de um prédio e, ao olhar para baixo, ficaria tonto e despencaria lá de cima. Seria uma morte humilhante, acompanhada por uma manchete de jornal mais desonrosa ainda – “Turista brasileiro sobrevive a terremoto e morre em consequência de queda do quinto andar do hotel”. Sinceramente, era preferível morrer esmagado por uma laje a ter a moral e a honra feridas na hora da morte.

*Arlicélio Paiva é Engenheiro Agrônomo (UFBA), Doutor em Solos (UFV) e Professor do Departamento de Ciências Agrárias e Ambientais da UESC, Ilhéus, Bahia. Insta: @arliceliopaiva

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