
Por Arlicélio Paiva, professor doutor da UESC, Ilhéus, Bahia
Reza a lenda que em um acidente ocorrido há muito tempo na ponte Lomanto Júnior em Ilhéus, morreu uma mulher que foi enterrada como indigente, pois jamais souberam a sua identidade. Nas madrugadas de lua cheia essa misteriosa mulher que possui cabelos soltos e compridos e se veste de branco, senta-se no guarda-corpo da ponte, com o olhar fixo nas águas da Baía do Pontal, como se estivesse a esperar por alguém. As suas pernas são tão longas que os seus pés arrastam nas águas da baía. Ela se mantém calma, tranquila e serena, balançando sossegadamente os pés nas águas, mas, mesmo assim, todos ficam apavorados com a sua presença.
Você pensou que fosse essa a estória que seria abordada aqui neste texto? #SQN. Ponte nova, nova mulher! É sobre a mulher da outra ponte, no Morro do Pernambuco, que irei discorrer!
Eu sou testemunha binocular desta estória! Por causa dessa nova mulher me especializei em leitura labial. Fico do lado de cá da Baía do Pontal observando tudo que acontece do lado de lá, próximo ao canteiro de obras da nova ponte. Tudo vejo, tudo ouço, tudo entendo, tudo sei! Portanto, o que vou contar aqui não são suposições!
Essa nova mulher é tão misteriosa quanto a outra, ela também assombra, talvez até mais do que a outra. Ela fascina os pobres operários, fazendo com que eles se comportem de maneira servil. Sua tez é macia e de cor morena, cabelos compridos e encaracolados, seios fartos, ancas largas, coxas grossas, nem tão alta, nem tão baixa, de sorriso fácil e olhar penetrante. Sempre trajada de bermuda branca e blusa floral. Ela leva os homens ao extremo, vai da volúpia à consternação, ela tem domínio sobre eles. Pobres homens!
Essa enigmática mulher possui um boteco próximo da ponte onde os operários tomam a cerveja mais gelada da cidade. Os petiscos também são os melhores, mesmo à distância sinto a textura e o cheiro, são servidos na quentura certa, sempre acompanhados de um sorriso fatal e enfeitiçador. Comem e bebem de modo sôfrego para depois sucumbirem aos caprichos da mulher. Pobres homens felizes!
Nas noites de lua cheia, ela estende a sua esteira e o seu corpo na areia da baía e atende ao impulso de cada um dos homens que a procura, aproveitando a ausência do seu amado esposo, ocupado no seu ofício noturno.
Os saciados operários trabalham por dois, às vezes até por três outros. A obra da ponte se impulsiona, os dias passam rápido e a inauguração prevista bem lá para frente vai chegar logo graças ao misterioso combustível que move esses homens. O esposo também é feliz e muito orgulhoso da mulher da ponte. O tempo passa depressa, mas a rotina no boteco e na areia da baía tem a sensação de calmaria. Pobres homens felizes e submissos!
De repente o engenheiro perde a calma, o mestre de obras se desespera, os operários levam as mãos à cabeça, o marido grita, a mulher fica cabisbaixa. Tudo foi descoberto enfim! Pobres homens felizes, submissos e desesperados!
A obra da ponte para, o engenheiro e o mestre de obras estão perplexos, a população cobra das autoridades, a imprensa divulga o motivo – greve impulsionada pelos direitos dos trabalhadores. A mulher da ponte domina e esbulha a todos. Pobres homens felizes, submissos, desesperados e consternados!
Tudo é sofreguidão, a população se enfurece, o desespero das autoridades aumenta, o engenheiro é cobrado, o mestre de obras é pressionado, os operários continuam desalentados. Ninguém sabe o que fazer. Pobres homens felizes, submissos, desesperados, consternados e desorientados!
De repente chega o bispo no boteco, ao seu lado o prefeito acompanhado do delegado e do juiz. Todos com sorriso forçado e tentando convencer, mas não dava para eu ver a quem. Eu me desesperei, os meus binóculos não viam a mulher da ponte! Todos começaram a sorrir espontaneamente, sorrisos fartos e largos, aparece o marido feliz e convencido de que tudo não passou de um mal-entendido. A mulher da ponte abraça o seu amado e a comitiva se retira com a consciência do dever cumprido. Mas, não antes de comemorar, tomando a cerveja mais gelada e comendo os melhores petiscos, servidos pela mulher da ponte.
Tudo agora está sereno, a rotina do boteco e da areia da baía continua. As obras da ponte tomam um forte impulso, o engenheiro madruga, o mestre de obras também, os operários viram a noite. Chega o dia da inauguração, o governador e demais autoridades presentes, o povo acena com alvoroço e a mulher da ponte responde a cada um dos acenos com o sorriso fácil e o olhar penetrante. O governador ciente de tudo que havia ocorrido, reconhecendo o mérito da mulher da ponte, deu à ponte o singelo nome de “Mulher da Ponte”. Pobres homens felizes, submissos, desesperados, consternados, desorientados e subjugados!
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Eu gostaria que o seu binóculo, Arlicélio, tivesse alcance à mulher da duplicação da Rodovia Jorge Amado.