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Existirmos: A que será que se destina? Arlicélio Paiva

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Por Arlicélio Paiva

A genialidade musical de Caetano Veloso o levou a compor, dentre tantas obras-primas que o diferenciam dos demais autores, a canção “Cajuína”, por ocasião da morte inesperada do seu parceiro de composição, o poeta tropicalista e piauiense Torquato Neto.

Tempos depois da morte do amigo, Caetano esteve em Teresina para fazer uma apresentação musical e, no hotel em que se encontrava hospedado, recebeu a visita de seu Heli, pai de Torquato Neto, que o convidou para visitar a sua casa. Ao chegar à residência, diante de tantas fotos do amigo que estampavam as paredes, Caetano não conseguiu conter a emoção, tampouco conversar com o progenitor de Torquato. Na tentativa de acalmá-lo, seu Heli o serviu um copo de cajuína e o levou ao quintal onde lhe ofereceu uma rosa menina. Caetano saiu da residência de seu Heli sem conseguir pronunciar uma única palavra para expressar a sua dor pela perda do amigo.

Ao chegar à próxima cidade da turnê, Caetano compôs “Cajuína” em homenagem ao seu amigo Torquato Neto, com inspiração no que ocorreu na casa do seu pai:
Existirmos: A que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos, intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

Diante da dor pela perda de um grande amigo, logo na primeira linha da canção, Caetano tenta entender o sentido da vida – “Existirmos: A que será que se destina?” Não é uma resposta fácil. Existem várias vertentes do conhecimento filosófico, religioso e científico que tentam descrever o propósito da existência humana.

Diversos filósofos trataram desse tema. Apenas para citar o pensamento de alguns deles, ressalta-se o que disseram os filósofos gregos mais antigos, como Sócrates, que afirmou que o propósito da vida era buscar o bem-estar e o crescimento pessoal e espiritual; Platão disse que viver era a busca do conhecimento para alcançar o bem que sintetizava as coisas boas e justas; Aristóteles acreditava que havia um propósito para tudo que o homem fazia e que o maior deles era alcançar a felicidade e o bem-estar; e Epicuro afirmava que o propósito da vida era a busca da paz, da felicidade e do prazer.

Ao longo do tempo, outros pensadores também trataram a respeito da existência humana, como Albert Camus que preferia viver, em vez de procurar o sentido da vida – “Você nunca será feliz se continuar a buscar em que consiste a felicidade. Você nunca viverá se estiver procurando o sentido da vida”. Joseph Campbell acreditava que a razão do viver era dada pelo próprio vivente, e por isso dispensa-se a pergunta sobre o sentido da vida – “A vida não tem sentido. Cada um de nós tem um significado e o damos vida. É um desperdício fazer a pergunta quando você é a resposta”.

Do ponto de vista religioso, há um emaranhado de respostas e proposições sobre o sentido da vida. Em geral, as religiões recomendam modos de comportamento que levam os seus fiéis para o caminho da felicidade, em busca da salvação que os dará a vida eterna.

Alguns cientistas acreditam que a vida humana surgiu por obra do acaso; por essa razão, não há um sentido a ser atribuído à vida, já que não há propósito no acaso. O filósofo Colin McGinn, estudioso da mente humana, afirma que “a incapacidade de se compreender é inerente à mente humana”. Mesmo assim, o ser humano insiste na busca de um propósito para a sua existência.

Talvez a maneira mais objetiva e funcional para atribuir um real sentido à vida seria deixar de pensar na condição de indivíduo – “minha existência”, e passar a se dedicar à condição de comunidade – “nossa existência”. Mesmo que a vida tenha sido obra do acaso, pelo fato de todos morarem na mesma “casa” merecem atingir o mesmo propósito, seja ele qual for. Para o altruísta Martin Luther King – “A pergunta mais persistente e urgente da vida é: O que você está fazendo pelos outros?”. Ainda mais cedo do que Luther King houve o preceito do nazareno Jesus – “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Aliás, caso fosse possível que todos seguissem essa recomendação, mais cedo poderia se atingir o bem-estar dos filósofos e a evolução e a salvação dos religiosos.

O que não se pode é querer comprovar a existência física de um Deus para dar sentido à vida, mesmo que, para isso, se utilize a mais avançada tecnologia para vasculhar o universo em busca das Suas pegadas. Caso esse Deus seja o Deus que todos dizem ter todo o poder, todo o conhecimento e está em todos os lugares, o mesmo que deu habilidade a um mágico que faz surgir e desaparecer coisas diante dos olhares atentos dos homens, os mesmos homens que procuram uma resposta para o propósito da vida, e que não compreendem o simples truque do mágico, Ele, Deus, não permitiria a seres tão ingênuos, tão tolos e tão presunçosos que descobrissem o porquê da sua existência.

Voltando ao sentido poético do propósito da vida, em sua canção “Certas Coisas”, Lulu Santos nos leva a refletir sobre a importância de existir componentes distintos na vida – “Não existiria som se não houvesse o silêncio; Não haveria luz, se não fosse a escuridão”. A contemplação das situações de contrastes é fundamental para se valorizar a vida. Na mesma poesia, Lulu Santos ainda diz – “A vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim”. O próprio Caetano Veloso expressou o seu pensamento através da sua canção “Boas-Vindas”. Para ele, a vida é “gostosa”, “tem o sol e tem a lua”, “tem o medo e tem a rosa”, “tem a noite e tem o dia”, “a poesia e tem a prosa”. O sentido da vida está nas coisas simples que devem ser contempladas. A vida é para ser vivida, compartilhada, sentida e percebida. Talvez, a vida não foi feita para ser compreendida, já que “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos” (Autor Desconhecido).

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