
Por: Arlicélio Paiva, professor doutor da UESC, Ilhéus, Bahia
Os atuais debates políticos no Brasil, mais apropriados que sejam conceituados como algazarras, estão pautados na dicotomia “esquerda” e “direita” como referência à preferência ideológica, não significando, obrigatoriamente, em um choque entre ideias opostas. O surgimento desses termos ocorreu após a Revolução Francesa, datada de 1789, cujos ideais foram difundidos pelo lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, quando os “direitistas”, articulados com a nobreza e a alta burguesia, sentaram-se do lado direito do presidente da assembleia, e os “esquerdistas”, defensores da baixa burguesia e dos trabalhadores, sentaram-se do lado esquerdo.
Na Bahia, a “direita”, cuja frase publicitária mais memorável é a “rouba, mas faz”, ocupou o poder por décadas. Nos últimos 12 anos, a “esquerda” vem governando o estado que, segundo a sua própria modéstia, ou a falta dela, possui um governo tamanho “G”. Os dois grupos políticos acusam um ao outro de sabotar a educação pública no estado. Pelo que temos acompanhando ao longo do tempo, ambos têm razão!
Administraram a Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC) no período dominado pela “esquerda”, os professores Adeum Sauer e Osvaldo Barreto Filho (governo Jaques Wagner) e o então senador Walter Pinheiro (primeiro governo Rui Costa). Como resultado desse gerenciamento tamanho “G” de “Galhofa” com a Educação Pública, o ensino médio da Bahia teve desempenho embaraçoso, ocupando atualmente o último lugar no Brasil, avaliado pelo IDEB e publicado pelo MEC no final de 2018. O recém-empossado secretário da SEC, professor Jerônimo Rodrigues (segundo mandato de Rui Costa), foi secretário da Secretaria de Desenvolvimento Rural onde, na avaliação do próprio governo, se destacou pela sua capacidade administrativa. Mas, caso ele não tenha autonomia e recursos humanos e financeiros para debelar o vexaminoso desempenho do ensino médio nas escolas públicas do estado, de pouca coisa servirá a sua experiência anterior.
Desde 2014, ano do primeiro mandato do atual governador Rui Costa, os salários dos servidores públicos têm sido “Glosados” com o tamanho “G”, já que as perdas salariais chegam a quase 30%, por não receberem a reposição salarial equivalente à inflação do período. Vejam bem, não estamos falando de aumento de salário, mas, sim, de reposição de inflação!
Atualmente, os professores das quatro Universidades Estaduais da Bahia (UEBA´s) estão em “Greve”, também com tamanho “G”. É muito embaraçoso falar o motivo que causou isso – o governo se recusou a dialogar com os professores! Justamente com os professores que têm o diálogo como princípio pedagógico, práxis convergente com o educador Paulo Freire – “Ensinar exige disponibilidade para o diálogo“. As reivindicações do movimento paredista envolvem questões relativas aos direitos trabalhistas, reposição inflacionária de salários, desconto de alíquota previdenciária, alterações do estatuto do magistério superior e contingenciamento orçamentário das universidades, dentre outros.
Em relação ao desempenho do ensino superior, trataremos aqui apenas sobre a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), por desconhecer as particularidades das demais UEBA´s. A despeito dos cortes cada vez maiores no orçamento das universidades, a UESC ocupa o “Glorioso”, com tamanho “G”, primeiro lugar em publicação de artigos científicos dentre as universidades estaduais do Nordeste e o nono lugar entre as estaduais brasileiras, de acordo com estudo divulgado recentemente pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Essa universidade também teve notável desempenho na avaliação pelo Ranking Universitário Folha (RUF), ocupando o segundo lugar entre as universidades públicas na Bahia, atrás apenas da UFBA, e a 10ª colocação na Região Nordeste. Há que se ressaltar que alguns cursos da UESC alcançaram nota máxima no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), significando que esses cursos são tão bons quanto os melhores cursos da área no Brasil. Muitos outros obtiveram conceito 4, cujo valor máximo é 5.
Os “esquerdistas” e os “direitistas” digladiam-se em público e fazem acordo na surdina com nítido objetivo de manter os seus planos de poder. Eles se inspiram uns nos outros, geralmente para implementar ideias mirabolantes, como ocorreu recentemente, quando a “direita federal”, copiando o que a “esquerda estadual” vem fazendo há muito tempo, anunciou o corte do orçamento destinado para as universidades. A “direita federal” sugestionou transferir as universidades para o Ministério da Ciência e Tecnologia e depois recuou; agora, a “esquerda estadual” quer aproveitar a delirante ideia e transferir as Universidades Estaduais para a Secretaria de Ciência e Tecnologia, conforme depoimento do secretário anterior, área que também vem sendo tratada de forma “Gravosa” com tamanho “G”. Eles não sabem o que fazer com as universidades!
Maltratados pela “esquerda”, detonados pela “direita”, os professores seguem o seu caminho, muitas vezes de forma embaraçosa. Na balbúrdia que se estabeleceu no país recentemente, muitos “pensadores” da “direita”, repleta de “homens de bem”, rotularam os professores de “comunistas”. Nem vamos imaginar o que aconteceria com os professores se esses homens não fossem “de bem”! Os professores não são “comunistas”! Mas, são extremamente perigosos! Perigo muito bem descrito pela tirinha de Alexandre Beck, criador do personagem “Armandinho”, quando o menino indaga ao seu pai: “Por que tudo isso?! Os professores são assim tão perigosos?!”. O progenitor responde: “Para alguns, são sim… Eles podem ensinar o povo a pensar…”.
Pensando bem, o professor precisa ser tratado como “Gente” de tamanho “G”. Ele desempenha importante papel como educador e desempenha atividades, na maioria das vezes, excessivas e estressantes. Por conta disso, é um dos profissionais mais atingidos pela Síndrome de Burnout (esgotamento). Esse transtorno, também conhecido como Síndrome do Esgotamento Profissional, é provocado pelo excesso de trabalho, quase sempre em condições deficitárias, e se caracteriza pelo aumento do estresse, irritação e cansaço, que o leva à exaustão física e mental, resultando em baixa capacidade de realização profissional.
No relevante ofício de educar, reconhecido pelo filósofo e pedagogo John Dewey quando disse que “a educação, portanto, é um processo de viver e não uma preparação para a vida futura“, o professor precisa de quem caminhe junto com ele e abrace a causa desse fundamental processo de transformação social. Portanto, “direitistas” e “esquerdistas”, aprendam essa lição de William Arthur Lewis, ganhador do Prêmio Nobel de Economia: “Educação nunca foi despesa. Sempre foi investimento com retorno garantido”. Se o teu braço não abraça, então não embaraça!
(73) 99982-9064









Prezado Professor,
Sou professora da Educação Básica das áreas de humanas, e o seu artigo, causou em mim uma profunda reflexão e inquietação acerca da esquerda e da direita e os métodos tão similares de fazer a gestão pública. Parabéns pela coerência G da sua fala.
Abraços
Rita Souza
Análise precisa e reflexão muito sensata. Grato Professor! Desta vez fui provocado a comentar:
O termo massa crítica, frequentemente usado como modo de mensurar o capital intelectual e científico de um lugar, vem da física nuclear, como sabemos. Em seu significado original, refere-se à quantidade de reações em um material fissionável suficiente para manter uma reação nuclear em cadeia autossustentada. Esquerda e direita são artefatos da física de newton, da mecânica. Trata de quantidades e suas distribuições. O pensamento crítico e a educação são da física subatômica e quântica. Vencerá de qualquer modo chegando um dia a uma grande reação autossustentada. A direita tenta evitar esse dia, interrompendo deliberadamente o “enriquecimento” do “material radioativo”. A esquerda ao menos não faz isso, embora muitas vezes retarde o processo por outras conveniências circunstanciais. Acho que a Bahia está perto de sua massa crítica e que o governo começa a perceber isso. Faço votos!