Nova montagem tem como fonte documento histórico que revelou crimes sistemáticos contra povos indígenas durante a ditadura militar brasileira

Ilhéus recebe esta semana o diretor teatral e dramaturgo Márcio Marciano para uma imersão artística com o Teatro Popular de Ilhéus (TPI). A convite da companhia, Marciano desenvolve a dramaturgia do novo espetáculo do grupo, inspirado no Relatório Figueiredo (documento histórico que revelou crimes sistemáticos contra povos indígenas durante a ditadura militar brasileira).

A montagem completará a trilogia do TPI dedicada à luta dos povos indígenas, iniciada com Borépeteĩ. Uno (2023) e seguida por O Visconde Partido ao Meio na Guerra do Açu (2025). O novo espetáculo aprofunda uma investigação que a companhia vem consolidando: a de utilizar o teatro como instrumento de memória, denúncia e reflexão crítica sobre a formação histórica do Brasil.

A parceria entre Marciano e o TPI não nasce do acaso. Foi construída ao longo dos anos, em encontros e debates sobre políticas públicas para a cultura, além de trocas sobre gestão e pesquisa teatral. Dramaturgo reconhecido nacionalmente, cofundador da Companhia do Latão (São Paulo) e atualmente diretor do Coletivo de Teatro Alfenim, em João Pessoa – PB, Marciano tem trajetória marcada pela criação coletiva, pelo rigor dramatúrgico e por uma permanente investigação da realidade brasileira.

*Linhas de pesquisa semelhantes —* Marciano explica que o diálogo com Romualdo Lisboa começou antes mesmo da ideia deste espetáculo. “Nos nossos diálogos, fomos percebendo que nossos trabalhos se tangenciavam. Temos linhas de pesquisa semelhantes, voltadas para temas históricos e para a problemática da sociabilidade brasileira. Isso foi estimulando, em ambos, a vontade de cooperação.”

O dramaturgo destaca que, já em Ilhéus, teve a certeza do sucesso da parceria ao assistir aos ensaios da montagem O Visconde Partido ao Meio na Guerra do Açu. “Isso me mobilizou ainda mais para colaborar. Existe ali uma pesquisa consistente e uma potência criativa muito clara.”

Essa potência agora se volta para um dos documentos mais impactantes da história recente do país. Elaborado em 1967 pelo procurador Jader de Figueiredo Correia, o Relatório Figueiredo reúne mais de 7 mil páginas que investigaram denúncias de corrupção e abusos no extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI). O texto revelou torturas, escravidão, assassinatos e contaminações deliberadas por doenças.

Para Marciano, transformar essa matéria histórica em teatro é um desafio ético e artístico. “É uma matéria muito dura. Trata-se de um período de massacre sistemático das populações indígenas, patrocinado e oficializado pelo Estado brasileiro. É algo assustador.”

Marciano acredita no sucesso da montagem e elogia Romualdo Lisboa como um grande encenador, criativo e com domínio pleno da cena. “Com a força desse material e a inventividade dele, é possível criar uma obra plasticamente potente e que dialogue diretamente com o público. É uma forma de contribuir para o letramento da questão indígena na sociedade”, acredita.

*Encontro de trajetórias —* Para Romualdo Lisboa, a presença de Marciano em Ilhéus representa mais do que uma colaboração pontual: “é o encontro entre trajetórias comprometidas com um teatro crítico e historicamente situado”, explica.

“Receber Márcio aqui é uma alegria imensa. Ele é um dramaturgo de enorme densidade e rigor. Sua obra dialoga profundamente com o Brasil real. Essa parceria amplia nossa pesquisa e fortalece artisticamente o TPI”, elogia Lisboa.

O diretor do TPI destaca que a questão indígena não é um tema circunstancial para a companhia, mas um eixo estruturante de sua investigação recente. “Não é possível pensar o Brasil sem enfrentar a violência histórica contra os povos originários e, ao mesmo tempo, reconhecer sua resistência.”

Ao reunir a densidade dramatúrgica de Márcio Marciano à trajetória de pesquisa e invenção cênica do Teatro Popular de Ilhéus, o novo espetáculo promete transformar um dos documentos mais brutais da história brasileira em experiência estética e política — reafirmando o palco como território de memória, justiça e resistência.

Sobre o TPI — O Teatro Popular de Ilhéus é uma instituição cultural privada, parcialmente financiada pelo programa de Ações Continuadas da Secretaria de Cultura da Bahia, com recursos do Fundo de Cultura e do Governo do Estado.

Atualmente, o TPI está sediado temporariamente nas instalações da UESC, por meio de parceria com a Pró-Reitoria de Extensão, o Departamento de Letras, o Núcleo de Artes e o Observatório Astronômico da universidade.

PNAB — Este projeto foi contemplado nos editais da Política Nacional Aldir Blanc Bahia e conta com apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura, via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura – Governo Federal.

Yordan Bosco (MTB 2991)
Teatro Popular de Ilhéus (TPI)
Assessoria de Comunicação