Enquanto o Estado acumulou R$ 200 bilhões em dívidas, o governador sancionou um reajuste de 298% nos próprios vencimentos, elevando seu salário de R$ 10,5 mil para R$ 41,8 mil.

A narrativa de “eficiência administrativa” e “casa arrumada” que o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), ostenta em suas redes sociais e palanques políticos ignora um fator jurídico determinante: a sobrevivência financeira do estado não se deve apenas a cortes de gastos, mas a uma “muleta” jurídica estendida pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

​Se analisarmos os números sem o filtro do marketing político, a conclusão é aritmética: sem as sucessivas liminares que suspenderam o pagamento da dívida com a União, a gestão Zema teria mergulhado Minas Gerais em um colapso fiscal superior ao enfrentado pelo seu antecessor, Fernando Pimentel (PT).

O “Milagre” das Liminares

​Desde que assumiu, Zema se beneficiou de decisões judiciais que permitiram ao estado parar de pagar as parcelas mensais da dívida bilionária com o Governo Federal. Esse fôlego financeiro, que ultrapassa a marca dos R$ 50 bilhões não desembolsados ao longo dos últimos anos, foi o que permitiu ao atual governador colocar os salários dos servidores em dia — sua principal vitrine política.

​Pimentel, por outro lado, governou sob o torniquete do pagamento da dívida e com repasses federais minguantes, o que resultou no trágico escalonamento salarial e no sequestro de verbas dos municípios. Se Zema tivesse que retirar mensalmente cerca de R$ 1 bilhão do caixa para honrar a dívida, o “gestor eficiente” estaria hoje lidando com o mesmo cenário de greves, atrasos e precariedade de serviços públicos que marcou o governo petista.

Dívida Maior, Investimento Menor

​A ironia da gestão do Partido Novo é que, sob a bandeira da austeridade, a dívida mineira explodiu. Saltou de R$ 114 bilhões em 2019 para mais de R$ 200 bilhões em 2026. Ao não pagar as parcelas e não conseguir aprovar o Regime de Recuperação Fiscal (RRF) na Assembleia Legislativa, Zema permitiu que os juros corressem soltos.

​Diferente de Pimentel, Zema teve “sorte” extraordinária com receitas extraordinárias:

  1. O Acordo da Vale: Bilhões injetados no estado após a tragédia de Brumadinho.
  2. Inflação e ICMS: O aumento de preços de combustíveis e energia inflou a arrecadação estadual por um longo período.

Conclusão: Gestão ou Ganho de Tempo?

​Ao comparar as duas gestões, fica claro que a diferença não reside apenas na competência técnica, mas nas condições de jogo. Enquanto Pimentel foi asfixiado pela dívida, Zema foi oxigenado pelo STF — a mesma corte que o governador e seus aliados frequentemente criticam.

​Sem o “escudo” de Brasília, o modelo de gestão do Novo teria colapsado ainda no primeiro mandato. No tribunal da realidade fiscal, o sucesso de Zema é, em grande parte, uma construção jurídica que apenas adiou o acerto de contas com o futuro de Minas Gerais. O estado não foi consertado; ele está apenas vivendo de liminares.

​O texto acima reflete uma análise baseada no crescimento da dívida pública e no impacto das decisões do STF sobre o fluxo de caixa do Estado de Minas Gerais.